Lembro da infância com saudade de arco-íris.
Cheiro de merendeira, de boneca moranguinho e de sandália nova, daquelas rosinhas que davam vontade de morder só de sentir o aroma de tutti frutti.
A criança que eu fui guarda cheiro de terra molhada e mato fresco. Gostava do barulho e do gosto de chuva. Sentava próximo a janela pra vê-la cair e corria quando os relâmpagos apertavam.
Gostava de brincar na rua, pentear e cortar cabelos de bonecas, cantarolar e inventar músicas e histórias. (...)
Não tinha amigos imaginários mas havia um mundo com dinossauros, flores, córregos e aventuras que jurava que existia em algum lugar.
(...) No parque, soltava sorrisos no autopista e abraços no pai na roda gigante. No final pedia algodão doce e fazia o charme pelo colo, é claro.
Era atrevida e geniosa.
A criança que eu fui tinha a resposta na ponta da língua e dava trabalho na hora dos porquês...
Orava nas refeições agradecendo e dizendo o nome de cada alimento que encontrava em seu prato. Mas nem sempre comia 'tudinho'.
Não foi mimada de vencer pelo chororô ou por pirraça. Mas tinha o pai pra dizer 'pergunte à sua mãe', a mãe pra dizer 'pergunte ao seu pai' e a vó pra dizer 'sim' sem nem antes perguntar se podia fazer algo.
(...) Ralava os joelhos na rua porque gostava de correr. Corria da bola ao jogar queimada e também no vôlei ou futebol. Não gostava de dançar. Preferia o sossego da platéia.
Tinha bicicleta e patins. Um caderno encapado de azul de bolinhas brancas, um pônei de plástico, um all star cano longo amarelo, uma florzinha que dançava ao sensor de sons, um estojo em formato de piano, e muitos, muitos papéis de carta.
A criança que eu fui gostava de escrever, de lego e de lápis de cor. Desenhava casas e roupas de bonecas mas cresceu e nem lembrou dessas aptidões pra escolher sua profissão.
Quando cresceu, olhou pro mundo aos avessos e viu o quanto foi privilegiada por, mesmo tendo tudo do mais simples, não lhe faltar nada. Do carinho ao teto. Dos cuidados à educação. Tudo suado e batalhado pelos pais.
Me encontrei com a criança que eu fui essa semana e perguntei se ela gostaria de estar aqui no mundo em que estou. A resposta foi certeira e negativa.
Disse que não, porque lamenta o descaso, o desrespeito, a violência e o medo do tempo presente.
Prefere morar em cheiros, imagens, sentimentos e memórias. Disse que ficará onde está, resguardada na lembrança e no sonho de um tempo bom, até que suas esperanças e direitos parem de ser tratados como brincadeira...de criança.
(Yohana Sanfer)