A alma é um cenário.
Quando estamos inertes, enclausurados e desanimados é noite.
Em movimento, ativos e animados é dia.
Há quem viva uma eterna noite dentro de si, são aqueles que por algum motivo se perderam pelo caminho e não encontram mais a morada da esperança. Dependentes químicos entregues, andarilhos e alguns pedintes exemplificam.
Por outro lado, há quem mesmo diante das intempéries, não deixa de caminhar, pois carrega consigo uma semente poderosa chamada fé. Pessoas que matam um leão por dia para não faltar o pão, sem perder a dignidade.
Em todo caso, entre o dia e a noite há o crepúsculo, que são aqueles momentos de tristeza atravessados por todos.
A fluidez da vida está nessa inevitável sucessão de cenários.
O rio do tempo arrasta pouco a pouco tudo o que amamos: a juventude, a memória, a agilidade e, mais cedo ou mais tarde, até as pessoas que amamos. Mas não sejamos tão trágicos, pois o mesmo rio também arrasta toda dor, angústia e sofrimento.
Demoramos muito perceber que não basta fazer da busca pela felicidade o sentido maior da vida, posto que a felicidade é tão efêmera. Cada vez que alcançamos um degrau, outro mais alto nos parece melhor. Então, não é somente essa busca que justifica nossa estada aqui, mas também a capacidade de lidarmos com nossos momentos de tristezas e perdas.
É preciso aceitar o crepúsculo, esse cenário inevitável em nós, pois a ordem natural do mundo revela que passados o crepúsculo e a noite, um novo dia sempre há de nascer, com cores de alegria e esperança.
(Moacir Willmondes)
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| Arte: Christian Schloe |