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30.7.17

Enseada

Quem se fecha em si mesmo como um lago, em busca de tranquilidade total, esquece que bem no fundo os lagos escondem lama e lodo.
Quem se abre completamente como uma praia, buscando a liberdade dos mares, esquece que todos os dias as praias têm suas areias machucadas por visitas indesejadas.
Por isso, talvez devêssemos nos abrir comedidamente, como uma enseada de águas tranquilas, feito colo de mãe, capaz de se tornar um porto seguro para a chegada de coisas boas e de partida das ruins.




22.5.17

Abraço

Dos gestos de carinho, o abraço está entre os mais enlevos.
Com o abraço trazemos para perto do coração o que nos é querido.
Abraço dispensa palavras, quando nos consternamos com o sofrimento de alguém.
O abraço é o gesto que sela o perdão. 
Ele permeia o antes, o durante e o depois do casal que faz amor.
Transforma o colo da mãe em ninho, quando pássaros errantes, 
recorremos aos conselhos dela.
Abraço é a asa do amor. Não foi um sábio e amoroso carpinteiro, 
que queria acolher seus filhos tal qual a galinha junta seus filhotes embaixo da asa?
Quem sabe o valor do abraço, já fez pacto de amor com a vida em muitas línguas: 
carpe diem, la vita è bela, l avie em rose...
Porque a vida nos acolhe com a exata intensidade com que a abraçamos.

1.2.17

Sonhos para um novo ano...

Sempre que um ano termina e um novo começa, somos tomados por uma sensação de recomeço, de metas a serem cumpridas, com planos de mudança para o que não está tão bem em nossa vida. Em todo caso, tudo não passa de apostas que fazemos em nós mesmos por meio de nossos sonhos e aspirações, já que “a vida – nos alertou Quintana – é o dever que nós trouxemos para fazer em casa”.
Por isso, ano novo é chance de desvencilhar de nós mesmo, reinventar-nos em novos planos e projetos. Deixar de viver a vida do outro e viver a própria vida, seja no trabalho, numa amizade ou num amor. Se preciso for, abrir mão de uma relação de amizade ou amor mantida tão somente pelo comodismo de não enfrentar o que os outros vão pensar. Dedicar-se mais às amizades verdadeiras e menos às frívolas. Preocupar-se mais com quem se preocupa conosco e menos com quem pareceu de nós se esquecer. Querer o que é novo com a curiosidade das crianças e com a força dos adolescentes. Não fazer da fé um amuleto para os momentos difíceis, mas uma mola propulsora de realizações. Admitir voltar atrás somente para reconhecer e corrigir velhos erros. Cuidar mais da alimentação, incansavelmente, ainda que o último regime tenha dado em nada. Suspirar mais diante de um por do sol, de uma cena de amor num livro ou filme, de um elogio sincero dito ou escrito com todas as letras. E nunca, nunca mesmo, deixar que os sonhos se apaguem dentro de nós, antes que se renovem diante de um novo ano todinho feito só para nós!




22.9.16

Um novo tempo...

Está chegando um novo tempo.

Um tempo de recolher as folhas secas do coração, soprar as poeiras da indiferença, tristeza e desânimo e sentir a chegada de brotos de renovo e esperança.

Tempo de abrir as janelas para que flechas de luz acertem alvos de sensibilidade, ânimo e amor bem dentro do coração.

Nas palavras de Drummond, "O tempo é todo vestido de amor e tempo de amar".

Já se pode sentir o cheiro de nascentes cristalinas verdejando a erva no campo.

Até os trigais maduros dançam sob o olho do sol (que está mais brilhante), comemorando a aproximação de um novo tempo de colheita abundante.

A efemeridade do tempo já terminou de vestir os ipês. Já desfilaram os roxos, os amarelos e os rosas, os brancos já anunciam a paz vindoura.

Em breve os pássaros se porão alegres a voar ao sabor do vento, ensinando que o mesmo vento pode encher balões multicores com sonhos dentro de quem se deixar seduzir pela nova estação. A vida ganhará mais leveza, beleza...

Sedutoras borboletas ensinarão que só quem aceita as mudanças que vêm de dentro é que se tornam mais belos e admiráveis.

As flores embelezarão o mundo: margaridas, tulipas, gardênias, éricas, astromélias, estrelícias e orquídeas  sorrirão um hálito perfumado para o Criador, agradecendo pela genial ideia d'Ele ter criado um jardim, no Éden.

Por isso, vista sua roupa mais leve! Mulher, orne os cabelos com uma fita de cetim! Homem, fixe um botão de rosa na lapela do paletó! Ambos, vivam intensamente a dádiva desse novo tempo!

Que tempo é esse? É a chegada da primavera no hemisfério sul.

(Moacir Willmondes)



15.8.16

Preenchendo a vida

Se a vida lhe parecer vazia, preencha-a!

Comece por cultivar jardins entre os lábios, verá que as palavras cuidadas com carinho tornam-se botões de flores desabrochando nos ouvidos que as acolhem.

Algumas vezes, sorria de você mesmo, seja de uma gafe ou de um semblante amarrotado ao acordar numa manhã de chuva. Sua autoestima ficará leve como um balão colorido, sem os pesos de querer andar sempre em dia com o espelho ou com o que as pessoas esperam de você.

Construa um barco, pode ser de papel, escreva nele suas ansiedades mas não o lance numa enxurrada qualquer, transforme-o em uma prece e verá que ele viajará longe só para buscar os frutos da sua fé.

Permita-se sonhar mais, sem se importar com o que vão pensar a seu respeito. As opiniões alheias são como uma mola, pode impulsionar você para o alto ou para um abismo.

Quando puder, faça um ninho, pode ser de algodão ou palha. Deixe-o vazio. Só para fazer você perceber que uma vida sem filhos não é o fim do mundo. Mas, havendo filhos, o ninho vazio lembrará você que um dia ele precisarão voar sozinhos, estando o ninho dos seus braços eternamente disponível para eles.

Faça de sua casa um refúgio. O mundo inteiro pode desmoronar, mas sua casa precisa estar de pé, e mesmo que um dia ela balance, nunca se canse de reforçá-la, pois é nela que seus pés cansados procurarão um tapete macio e sua cabeça um apoio nos dias difíceis.

Não perca muito tempo com quem não se preocupa com você. A vida é breve, alguns trechos da caminhada precisam ser percorridos sozinhos. Percorra-os!

Não faça do tempo um fantasma, senão ele assusta você. Prefira aceitá-lo quando ele parecer inesperado e intenso, mas espante-o quando se tornar monótono e tardio.

Descubra o valor das pequenas coisas: o cheiro bom de café numa manhã de chuva, o pijama de flanela numa noite fria, o encontrar de um dinheiro esquecido no bolso do casaco desde o último inverno, a lembrancinha inesperada recebida da amiga que viajou e lembrou de você, a surpreendente aparição da lua cheia numa noite solitária, a lembrança de um momento bom do passado que marcou, a música que sempre arrebata seus pensamentos a um lugar maravilhoso.

Por fim, se ainda assim a vida parecer vazia, siga os conselhos poéticos de Baudelaire, embebede-se, “Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a escolha é Vossa. Mas embebedai-vos!

(Moacir Willmondes)





24.5.16

Talentos

No oriente, conta-se a história de um monarca que querendo construir uma nova casa, convidou um de seus amigos que era construtor para fazê-la. 
Deu-lhe carta branca para usar os melhores materiais, ferramentas e trabalhadores. Entretanto, o construtor usou os materiais mais comuns e contratou os empregados mais baratos e desqualificados, que fizeram um trabalho medíocre e relaxado. Sem se preocupar com a qualidade dos materiais e do serviço, a nova casa do rei acabou ficando pronta. 
No dia da inauguração houve uma grande cerimônia na qual o monarca convidou todos os seus súditos. Chamou o construtor no palanque, abraçou-o em forma de agradecimento e num discurso disse olhando para seu amigo construtor: “Vê esta casa? Era uma surpresa que eu queria lhe fazer em nome de nossa amizade, eu lhe dou de presente, ela agora é sua”.

Essa história que é de domínio público e autoria desconhecida, há muitos séculos é utilizada nos sermões eclesiásticos, e bem ilustra o mau uso que o homem pode fazer das qualidades e talentos que adquire, utilizando-os de forma negligente e indiferente, esquecendo-se que suas ações poderão reverter em sua recompensa ou castigo.
E você, tem dado o melhor de si para construir a melhor casa?

(Moacir Willmondes)




6.10.15

Tem azeite aí?!

Nos tempos bíblicos, as azeitonas passavam por quatro processos rigorosos de moeduras para a extração de várias modalidades de azeite. Os judeus abriam uma cavidade em uma grande rocha e ali depositavam as azeitonas, para em seguida comprimi-las ao girar outra rocha moldada para rodar dentro da cavidade. A primeira volta dada pela rocha que girava macerava as azeitonas obtendo o azeite mais espontâneo e puro. Esse tipo de azeite era o mais nobre de todos e era retirado para ser usado em adoração nos templos religiosos. Na segunda volta espremiam-se novamente as azeitonas agora já rompidas da casca na volta anterior e obtinha-se um segundo tipo de azeite que era usado na alimentação. O terceiro tipo, utilizado para iluminação em lamparinas era obtida pela terceira volta da rocha que espremia que já formavam uma massa espessa. Finalmente, o quarto tipo, o menos nobre de todos, porém, não menos importante, era obtido da moagem dos bagaços restantes dos processos anteriores um líquido pastoso que era utilizado na fabricação de sabão.

Esse processo é a mais perfeita metáfora da vida de alguém que se diz cristão. Pois de nada adianta esquentar o banco da igreja, falar noutras línguas, cantar com as mãos erguidas aos céus ou dar cambalhotas. Ser cristão vai muito além do fato de ir à igreja. São as atitudes diárias que determinam isso.
O verdadeiro cristão deve se submeter ao processo de esmagamento da sua natureza humana para que dele se extraia os quatro tipos de azeite:

Primeiro, ele deve se tornar um adorador e nunca se cansar de clamar os versos de Davi: “Bendize, ó minha alma ao Senhor, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome”. (Sl. 103.1)
Deve-se adorar a Deus pelo que Ele é, e não somente pelo que Ele pode dar ou fazer. A adoração é um modo de vida e requer sinceridade, do contrário, tornar-se-á hipócrita...

Segundo, servir de alimento espiritual na forma de suas ações para com o seu próximo, cumprindo a ordenança “ ...dai-lhes vós de comer” (Mt. 14.16)
Estar sensível às necessidades das pessoas é imprescindível, e existem infinitas maneiras de supri-las.

Terceiro, “assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que estás nos céus”. (Mt 5.16)
Todo cristão, precisa fazer diferença na sociedade. Permitir que a luz de Deus brilhe onde quer que se esteja, é o primeiro passo.

Por último, ele deve estar limpo, pois “bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras no sangue do Cordeiro, para que tenham direito à árvore da vida e possa entrar na cidade pelas portas.” (Ap. 22.14). Quando coração e alma estão manchados, é necessário deixar de lado os excessos prejudiciais e purificá-los.

Existe uma orientação para que o cristão nunca deixe faltar o azeite em seu viver,
pois este simboliza o Espírito Santo, que é o combustível da alma, uma luz interior que aquece o coração e a vida. Entretanto, isso só é possível  quando há o esvaziamento de si mesmo...


(Claudete Parreira / Moacir Willmondes)


7.8.15

Cedro do Líbano...

Há uma árvore milenar e de crescimento interessante, é o cedro do Líbano. Essa árvore estampa a bandeira do país que dá seu nome e pode chegar a 40 metros de altura e mais de 10 metros de diâmetro no tronco. É muito utilizada nas edificações, dada sua resistência, beleza e o vigor de sua madeira, tanto que Salomão (rei de Israel, 971 a 932 A.C) o teria utilizado na construção de um grande templo, por considerá-lo símbolo de um reino justo e farto (Sl.72-16). Seu crescimento é lento, nos primeiros 3 anos, as raízes crescem pouco mais de um metro em busca de água no árido solo montanhoso do oriente médio, enquanto a parte visível para nós da planta alcança somente cerca de 5 centímetros. Essas raízes é que vão tornar a árvore resistente ao vento e ao calor das regiões altas em que normalmente se adapta. Quando essas raízes encontram uma rocha no caminho elas a “abraçam” e continuam a crescerem em volta dela, quanto mais agarradas à rocha mais firmes ficarão, fazendo com que a árvore alcance lençóis freáticos e não dependa diretamente de chuvas para viver. Apenas depois do quarto ano é que a planta começa a crescer mais rápido e se parecer com uma árvore. Somente após cerca de vinte anos é que finalmente ela apresentará seus frutos, um tipo de pinhão, mas que lhe permitirá perpetuar a espécie e se tornar a bela árvore descrita pelo profeta Ezequiel nos poemas bíblicos:

... um cedro no Líbano, de lindos ramos, de sombrosa folhagem, de grande estatura, cujo topo estava entre os ramos espessos. As águas o fizeram crescer, as fontes das profundezas da terra o exalçaram e fizeram correr as torrentes no lugar em que estava plantado, enviando ribeiros para todas as árvores do campo. Por isso, se elevou a sua estatura sobre todas as árvores do campo, e se multiplicaram os seus ramos, e se alongaram as suas varas, por causa das muitas águas durante o seu crescimento. Todas as aves do céu se aninharam nos seus ramos, todos os animais do campo geravam debaixo da sua fronde, e todos os grandes povos se assentavam à sua sombra. Assim era formoso na sua grandeza e na extensão dos seus ramos, porque a sua raiz estava junto às muitas águas... Nenhuma árvore no jardim de Deus se assemelhava a ele na sua formosura.”(EZ. 31.3-8)


Essa árvore é a mais perfeita representação da vida humana. Os crescimentos mais consistentes que temos na vida, sejam físicos, profissionais ou espirituais são os que se dão lentamente. Não deveríamos nos preocupar com os frutos inicialmente, mas tão somente em lançar nossas raízes no rumo certo em direção ao conhecimento e ao equilíbrio necessário à vida adulta. E, sobretudo, “abraçar” a rocha capaz de firmar nossos passos e nos tornar estáveis e belos por dentro e por fora: a fé, independente de religião.

(Moacir Willmondes)

“O justo florescerá como a palmeira; 
crescerá como o cedro do Líbano.” 
(Sl. 92:12)

27.6.15

A procura...

Se eu pudesse voar num balão, iria bem alto, lá onde os pássaros flutuam sem nenhum esforço amparados pelas correntes de ar, veria quão pequenos se tornariam todos os problemas da vida quando vistos por outro ângulo, mesmo que de perto pareçam tão grandes, pois sinto que estaria amparado pelos braços do próprio Deus.

Se eu pudesse navegar num veleiro ao redor do mundo, faria pausas solitárias por ilhas paradisíacas, deitaria meu corpo numa praia de areias brancas com o mar lambendo meus pés e escreveria na areia o mais breve poema de um verso só: paz... Só para senti-la antes que as ondas a apagasse, para me ensinar que na vida sempre haverá tormentas.

Se eu pudesse correr feito maratonista que vence todo o cansaço e limites do corpo para chegar à vitória, correria incansavelmente por montes e vales, pois sei que em cada canto haveria uma paisagem revelando pistas de onde encontrar o divino, posto que sua face se reflete na beleza dos caminhos.

Se eu pudesse escalar os mais altos penhascos e descer os mais profundos abismos, tocaria os céus e pisaria as profundezas da terra esperando alcançar as mãos do criador ou firmar meus pés na rocha que o representa.

Não podendo fazer nada disso, calo-me.

Então, percebo quão vã e efêmera é a vida, dispo-me do manto da arrogância e das vãs pretensões e reconhecendo minhas limitações prostro-me com o coração contrito sem nada dizer. Finalmente, descubro onde posso encontrar a verdadeira espiritualidade: num lugar bem dentro de mim chamado silêncio...

(Moacir Willmondes)


13.4.15

Cenários da vida...

A alma é um cenário.

Quando estamos inertes, enclausurados e desanimados é noite.

Em movimento, ativos e animados é dia.

Há quem viva uma eterna noite dentro de si, são aqueles que por algum motivo se perderam pelo caminho e não encontram mais a morada da esperança. Dependentes químicos entregues, andarilhos e alguns pedintes exemplificam.

Por outro lado, há quem mesmo diante das intempéries, não deixa de caminhar, pois carrega consigo uma semente poderosa chamada fé. Pessoas que matam um leão por dia para não faltar o pão, sem perder a dignidade.

Em todo caso, entre o dia e a noite há o crepúsculo, que são aqueles momentos de tristeza atravessados por todos.

A fluidez da vida está nessa inevitável sucessão de cenários.

O rio do tempo arrasta pouco a pouco tudo o que amamos: a juventude, a memória, a agilidade e, mais cedo ou mais tarde, até as pessoas que amamos. Mas não sejamos tão trágicos, pois o mesmo rio também arrasta toda dor, angústia e sofrimento.

Demoramos muito perceber que não basta fazer da busca pela felicidade o sentido maior da vida, posto que a felicidade é tão efêmera. Cada vez que alcançamos um degrau, outro mais alto nos parece melhor. Então, não é somente essa busca que justifica nossa estada aqui, mas também a capacidade de lidarmos com nossos momentos de tristezas e perdas.

É preciso aceitar o crepúsculo, esse cenário inevitável em nós, pois a ordem natural do mundo revela que passados o crepúsculo e a noite, um novo dia sempre há de nascer, com cores de alegria e esperança.

(Moacir Willmondes)



Arte: Christian Schloe

7.12.14

A aposta de Pascal

Afinal, devemos ou não acreditar na existência de Deus?

Vejamos uma opinião interessante dada pelo matemático, físico, filósofo, cristão e teólogo Blaise Pascal. Encontra-se no seu livro póstumo Pensamentos (Pensées, 1670), onde, usando a lógica, ele cria uma convincente argumentação de o porquê se deve acreditar em Deus.

Pascal afirma que se você acreditar em Deus e estiver certo, terá ganhos infinitos, pois poderá desfrutar de toda uma eternidade por ter acreditado nele.

Todavia, se você acreditar nele e estiver errado, terá perdas finitas, afinal a vida é efêmera e o que você deixar de fazer sob o temor por acreditar nele, logo se findará.

Por outro lado, se você não acreditar em Deus e estiver certo, terá um ganho finito, pois tudo que você fizer logo se findará com a morte, já que neste caso não haverá nada após.

Finalmente, se você não acreditar em Deus e estiver errado, lamento: perdeu, playboy! Você terá uma perda infinita, pois ficará de fora da eternidade.

(Moacir Willmondes)




27.10.14

O brilho das estrelas...

A grandeza de uma estrela se mede pela dimensão de seu brilho, a grandeza de uma pessoa pode ser medida pela intensidade com que tocou e se deixou tocar pelas pessoas.

As amizades que ela fez pelo caminho, contadas não pela quantidade, mas pela intensidade da atenção e cumplicidade compartilhadas.

Os amores que despertou e que se deixou despertar, não incontáveis como as areias da praia ou inconstantes como as ondas do mar, mas profundos como os oceanos.

A pureza das boas intenções que mesmo às vezes divergindo do resultado pretendido, consegue ser imaculada pelo sincero pedido de desculpas.

Quando alguém lhe perguntar o tamanho do seu brilho, responda: não tenho o brilho do sol que cega, nem o brilho da lua que não é dela e sim apenas um reflexo, mas tenho o brilho das estrelas que mesmo não sendo perfeitas, pois piscam, conseguem iluminar o universo de quem se põe a tocá-las e com a ponta do dedo desenhar constelações inteiras de amizade, amor e pureza.

(Moacir Willmondes)



25.8.14

Tempo...

Do nascimento ao crepúsculo, somos lançados nos mares do tempo. Calmos ou bravios mares, ora navegamos, ora naufragamos.

Mares de salgadas águas, o tempo devora nossas certezas e dúvidas. Tira-nos a inocência, dá-nos a experiência das alegrias e das tristezas também.

Diminui a dor de uma perda, mas só aumenta a dor de uma saudade.

Faminto, o tempo cerca nossa esperança, mas não a devora, antes se torna dela cúmplice.

Em vão querer fazer um pacto com o tempo, colocar no dedo dele um anel, ele não compartilha nossos sentimentos, sonhos e crenças. Desafiá-lo, então, quem há de?

Implacável, ele traduz a nossa pequenez: a bela criança que fomos numa fotografia um dia, pouco a pouco vai se tornando um mapa cheio de marcas e anotações. Rabiscos do tempo em nós, mostrando os caminhos que percorremos.

Demoramos muito a duvidar que o tempo seja tão somente um rio que flui em nós. Só depois de muito enfrentar ou ser arrastado por suas correntezas, ondas e ressacas, é que percebemos que somos tão somente ínfimos peixinhos desse misterioso e desconhecido fluído chamado mar da vida.

(Moacir Willmondes)

Fonte: Recanto das Letras




11.7.14

Resiliência...

Há uma espécie rara de árvore na América do Norte cujas sementes são envoltas numa resistente camada seca, impenetrável para água e até para insetos e larvas. Quando caem no solo, ficam anos embaixo das folhagens e nada se vê. Segundo os biólogos, muito tempo depois, passados gelados invernos, secos outonos, quentes verões e úmidas primaveras, onde a maioria delas morrem por inanição de nutrientes por recusarem a amolecer sua dura casca, inexplicavelmente, somente aquelas que pouco a pouco cedem sua rigidez às intempéries a que são submetidas é que germinam uma nova árvore, cheia de vida e capaz de fincar profundamente suas raízes no chão para pacientemente crescer e florescer, dando continuidade ao ciclo da vida. As que se julgam excessivamente fortes sucumbem mortalmente.

Essas sementes são como os corações das pessoas que após uma decepção, fecham-se para o mundo não se importando de ver a vida lhes escapar pelos dedos e se tornam ressequidas de felicidade. É quando aprendo que as adversidades da vida são ótimas oportunidades para nos preparar para florescer, só é preciso estar disposto a amolecer o coração.


28.5.14

Tempo de delicadeza...

Podia chegar um tempo na vida onde tudo transparecesse delicadeza.

As mulheres bonitas voltassem a admitir respeitosos e sinceros elogios.

Os homens na rua ganhassem discrição e fino trato ao olhar com admiração uma mulher que passa.

Os filhos não mais subestimassem a capacidade dos pais e nem os pais a dos filhos.

Que todas as vezes o amante tocasse a amada e a ela se entregasse como se a última vez fosse.

A gratidão deixasse de ser comportamento raro e se tornasse hábito.

Os acordes harmoniosos da vida pudessem ser ouvidos em todos os lugares em forma de "desculpe!", "por favor!".

Um abraço sincero e afetuoso fosse a saudação universal entre as raças e os credos diferentes.

A esterilidade criativa do cinema findasse e, em vez da violência representada, fossem fecundadas virtudes como a amizade e o amor.

A delicadeza de ‘As quatro estações’ do Vivaldi permeasse os ritmos inconstantes das estações da vida, para que não nos embrutecêssemos e nem perdêssemos a ternura.

A delicadeza se mostrasse nos gestos mais simplórios do dia a dia, como respeitar um lugar na fila ou dar a vez a uma mulher ou a uma pessoa idosa.

O animal adormecido dentro de nós, capaz de matar, roubar ou fazer o outro sofrer nunca despertasse.

A mão que só aprendeu a segurar a foice também aprendesse a semear.

As ervas daninhas não crescessem nos jardins da nossa fé.

A beleza transcendesse a estética e também se tornasse objeto da ética.

Os opostos vivessem em perfeita harmonia.

Os cabelos brancos significassem muito mais que a idade.

Você pode dizer que eu sou um sonhador / Mas eu não sou o único / Espero que um dia você se junte a nós / E o mundo será como um só”. (John Lennon)

(Moacir Willmondes)


[Extraído do blog:Entrelinhas]


12.4.14

Ciclos...

Gosto dos ciclos.

Chegam como estações do ano e mudam nossos cenários, permitindo vermos novas paisagens.

Arrancam nossas folhas velhas e põem em nós brotos de renovo.

Os ciclos do dia: a noite triste que se encanta pela luz do sol e cede ao presente de um novo dia.

Ciclos do coração: um amor que se vai, o intervalo quase sempre doloroso até a alegria de um novo amor que chega. Na solidão entre dois amores é que nos encontramos com nós mesmos. Nesse ciclo, há quem renasça fênix, cheio de vida e esperança, mas também há os que se tornam pássaros arredios e fugidios.

Amor, desamor, dor... Que triste rima.  Amor, amor, amor... Que alegre rima.

E como são surpreendentes os ciclos do coração. Não escolhem lugar e nem hora, simplesmente acontecem.

Um beijo que já não diz nada, uma ausência do outro ser, mesmo estando ao lado, um desbotar nas cores da admiração provocadas pela rotina do tempo, uma cama que ficou grande demais, a indiferença às palavras do outro, tudo isso encerra um ciclo.

Um pensamentozinho involuntário em alguém no final da tarde ou à noite, e lá estamos nós movendo as engrenagens dos ciclos, enquanto semeamos desejos e flores pelo caminho.

Todo ciclo é um degrau que a vida nos põe a subir ou a descer, nem sempre podemos escolher o sentido, mas os passos, os passos são sempre nossos.


[Extraído do blog: Entrelinhas]




12.3.14

Voar...

Deveria chegar um momento na vida em que tudo perdesse a pressa. Quando começássemos a traçar um encontro com a pessoa mais importante do mundo, nós mesmos.

A vida ganharia uma serenidade, não falo de comodismo e nem de conformismo, estamos na selva, não é mesmo? É preciso olhar onde se pisa, sempre. Tampouco de técnicas de relaxamento, elas ajudam, mas é alívio provisório.

Falo de um instante só nosso, longe de filhos, marido, namorada, amante, trabalho, estudos, para viajarmos ao sabor dos pensamentos pelo céu da nossa mente.

Notaríamos os temporais se aproximando, mas sem nos abalarmos, curtiríamos o cheiro da chuva, pois já se teria feito o que tinha que se fazer, aí só restaria esperar.

Subir num balão colorido e seduzir o vento para ajudar a espalhar dentro de nós mesmos sementes de girassóis, gerânios, hortências, tulipas e margaridas, as quais germinariam autoestima, autocuidado e atenção por nós mesmos.

É na distância do que se semeia que se pode melhor contemplar o desabrochar das flores.

Depois, parar o mundo, descer um pouco e espreguiçar as juntas, oxigenar os pulmões e simplesmente contemplar a natureza, caminhar entre regatos, sentar-se na relva e dizer ao mundo: fui eu que plantei esse jardim.

Fazer como Albert Camus, que na juventude escrevia em cadernos, registrando a forma como via o mundo em alguns instantes que eram só dele: “Dia atravessado por nuvens e sol. […] Eu deveria fazer um caderno do clima de cada dia. Esse belo sol transparente de ontem.”

Quem pensa o contrário, está fadado a agir como alguns passageiros do Titanic, que mesmo com o navio afundando, preferiram a ilusão de uma festividade dançante ao sabor da morte.

(Moacir Willmondes)


(Extraído do blog:Entre, linhas)


10.2.14

Travessias...

Há uma travessia inevitável no rio da vida: é o encontro de nós com nós mesmos.

Há pessoas que possuem margens estreitas, alcançam o outro lado através de meditação, reflexão pura e simples ou espiritualizando-se por meio da religião. Outros, constroem pontes através de terapias, desabafando com alguém ou mantendo estreitos laços de amizades e dialogando com outras pessoas. 

Mas há aqueles cujas margens são distantes, espaças. É sobre esses que quero falar. Os que temem naufragar nos barcos do amor, da amizade, da compreensão e acabam adiando as travessias.

Demoram perceber que atravessar o rio da vida é ir de encontro à felicidade, pois que a felicidade habita essa outra margem dentro de nós e que, por vezes, imaginamos tão distante.

Inútil é querer incentivar aqueles que recusam as travessias. Melhor é agir como os amigos de Jó no texto sagrado: “Ficaram sentados no chão ao lado dele sete dias e sete noites, sem que nenhum lhe dirigisse a palavra, tão grande era a dor em que o viam mergulhado” (Jó 2.13).

Por vezes, é no isolamento que se encontra o caminho da travessia. Foi o que confessou Guimarães Rosa, relembrando que em sua infância a reclusão de seu quarto era seu porto seguro, pois era lá que se ausentava da incômoda presença dos adultos. Tornou-se amigo da solidão e com ela realizou travessias dignas de uma vida inteira, foi na forma do sertão. Não há lugar mais solitário para se realizar travessias do que o sertão, suas intempéries e vazios, onde se grita e ninguém ouve. “O sertão está em toda parte...”, dizia ele repetidamente quando se punha a atravessar os regatos poéticos que nasciam dentro dele.

Nietzsche, filósofo que recusava percorrer as travessias sugeridas pela religião, descobriu suas próprias travessias diante de um desamor, foi quando uma sífilis o impediu de viver com o grande amor de sua vida, Lou Salomé. Suas travessias se davam regadas a uma enxaqueca solitária. Assim como solitário foi Schopenhauer, que gostava da companhia somente de seu poodle, pois, sendo um cão, não tentava consolá-lo. Talvez por isso ele tenha dito que quanto mais conhecia os impulsos das pessoas mais amava seu cachorro.

A travessia para pessoas assim, ocorre na companhia de uma voz interior cuja solidão a torna perfeitamente audível. Os gregos antigos chamavam essa voz de daimon, o cristianismo da idade média a batizou de anjo da guarda, Freud no século passado a chamou de ego. Pouco importa o nome, importante é que é dentro de nós que melhor ouvimos os sons do silêncio.

Esse som que para o solitário é de uma sensibilidade libertadora e que lhe serve de barco para a travessia. O nome desse barco? Pensamentos...

É preciso ouvir os pensamentos, pois são eles que tocam as notas mais sutis dentro de nós apagando nossas lassidões. Lembram do conto francês 'O Pequeno Polegar'? Há um trecho em que ele se instala no ouvido do cavalo e falando baixinho, usando uma voz que ninguém ouvia, foi capaz de comandar a força descomunal do animal.

Rimbaud, aquele menino que escrevia poemas, foi capaz de atravessar as estrelas ouvindo essa voz cheia de mansidão que só os solitários ouvem, tanto que escreveu: “Pequeno polegar sonhador, debulhei pelo caminho rimas. Meu albergue ficava na Ursa Maior”.

Toda travessia é uma chance que damos a nós mesmos...

(Moacir Willmondes)




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