Podia chegar um tempo na vida onde tudo transparecesse delicadeza.
As mulheres bonitas voltassem a admitir respeitosos e sinceros elogios.
Os homens na rua ganhassem discrição e fino trato ao olhar com admiração uma mulher que passa.
Os filhos não mais subestimassem a capacidade dos pais e nem os pais a dos filhos.
Que todas as vezes o amante tocasse a amada e a ela se entregasse como se a última vez fosse.
A gratidão deixasse de ser comportamento raro e se tornasse hábito.
Os acordes harmoniosos da vida pudessem ser ouvidos em todos os lugares em forma de "desculpe!", "por favor!".
Um abraço sincero e afetuoso fosse a saudação universal entre as raças e os credos diferentes.
A esterilidade criativa do cinema findasse e, em vez da violência representada, fossem fecundadas virtudes como a amizade e o amor.
A delicadeza de ‘As quatro estações’ do Vivaldi permeasse os ritmos inconstantes das estações da vida, para que não nos embrutecêssemos e nem perdêssemos a ternura.
A delicadeza se mostrasse nos gestos mais simplórios do dia a dia, como respeitar um lugar na fila ou dar a vez a uma mulher ou a uma pessoa idosa.
O animal adormecido dentro de nós, capaz de matar, roubar ou fazer o outro sofrer nunca despertasse.
A mão que só aprendeu a segurar a foice também aprendesse a semear.
As ervas daninhas não crescessem nos jardins da nossa fé.
A beleza transcendesse a estética e também se tornasse objeto da ética.
Os opostos vivessem em perfeita harmonia.
Os cabelos brancos significassem muito mais que a idade.
“Você pode dizer que eu sou um sonhador / Mas eu não sou o único / Espero que um dia você se junte a nós / E o mundo será como um só”. (John Lennon)
(Moacir Willmondes)